domingo , 26 março 2017
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O dilema de Txiki

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Nossos corações palpitam ansiosamente pelo fim de uma pré-temporada que parece durar décadas. É inegável que para os fãs do futebol europeu este período sem campeonatos é angustiante, já que, em vez de comemorar gols, comemoramos a chegada de novas estrelas que sejam capazes de nos fazer sonhar com glórias vindouras.

Continuando esta analogia, e transportando-a para a realidade do momento, pode-se dizer que o City ficou em um 0 x 0 mais tempo do que esperávamos ou deveria ser, enquanto nossos rivais aplicavam goleadas logo ao lado. Fato que, como em uma partida modorrenta qualquer, naturalmente impacientou a torcida. Se em um jogo em si os burburinhos pelo mau resultado recaem quase sempre sobre o treinador, neste caso o alvo das insatisfações tem outro nome (um tanto difícil), e outro cargo: o diretor de futebol Aitor ‘Txiki’ Begiristain.

Txiki veio junto a Ferran Soriano em 2012, dando indícios claros que o projeto do Sheikh Mansour seria transformar o clube em uma cópia de sucesso daquilo que o Barcelona se tornou. Como sabemos, os dois espanhóis foram o cérebro responsável por aquela filosofia que culminou no time fantástico que ganhou tudo o que era possível na terra sob o comando de Pep Guardiola. Soriano, inclusive, escreveu um livro, o sugestivo “A bola não entra por acaso”.

A idéia da vinda da dupla não foi de simplesmente fazer um trabalho, mas implantar uma filosofia, semelhante a adotada pelo clube catalão, da sua cantera a equipe principal. O trabalho de Soriano é mais administrativo, buscando transformar o City em uma marca global, capaz de gerar receitas incontáveis e tendo adeptos em cada buraco deste planeta. Txiki, ligado diretamente ao futebol, busca montar o time dos sonhos, seja para o presente ou para o futuro, assim como aquele Barça. Foi por causa desta filosofia que Mancini caiu, por exemplo, e também por causa dela que existem os rumores que o próximo alvo será Guardiola, assim que terminar o contrato do mesmo com o Bayern, ao fim desta temporada.

Na parte de Soriano, pouco a dizer, o trabalho é extraordinário: o clube cresce, tem uma estrutura invejável, gera cada vez mais receita e está montando filiais em cada lugar onde existir um campo de grama com duas traves. Já o amado Txiki… bem, pelo menos para algumas opiniões, não tem sido tão excepcional assim, e a prova disto é mais clara que a clara de um ovo: a escalação base do City.

Podemos dizer que a equipe titular completa da última temporada era ocupada em 9 das 11 posições pelos mesmos jogadores do nosso primeiro título da Premier, em 2011/12, e que, portanto, chegaram antes dos espanhóis ao clube. As únicas exceções foram Demichelis e Fernandinho. Se por um lado, isto é bom, por causa do entrosamento, pode evidenciar também uma importante falta de renovação, e que parece ter algo errado com o processo de contratações. Tem gente que, injustamente, vai buscar as contratações erradas do mesmo na época do Barça e lembram que um dia ele trouxe Keirrison para o clube, pura maldade…

Aliás, as críticas podem levar muitos a se indagarem porque o antigo CEO Gary Cook parecia ter mais agilidade e sucesso nas negociações que conduzia. O fato é que o inglês, que esteve no cargo entre 2008 e 2011, trouxe um caminhão de gente desde o início da era Sheikh, e tantos desses deram errado, mas, aos poucos o olho foi se refinando e, afinal, culminou com o time que nos deu títulos e proporcionou sucesso ao projeto, com indispensável ajuda de Roberto Mancini, após péssima aposta em Mark Hughes.

Sobre toda esta explanação, temos que ser racionais e entender que na época de Cook, agíamos como loucos distribuindo pequenas fortunas para o primeiro que topasse embarcar em uma viagem incerta, e até então pouco atraente, em termos futebolísticos. Talvez tivesse gente que foi para o City pouco depois de saber que o próprio existia. O sucesso era só uma promessa. Na verdade era o que o momento demandava, tínhamos que atrair estrelas, que podiam atrair outras estrelas, e assim propiciar o crescimento da equipe. Era necessário pagar muito, e nem falo em termos de transações, já que hoje temos que pagar ainda mais neste mercado inflacionado, mas, principalmente, em salários. E assim chegaram Robinho e Tevez.

Hoje a questão é bem diferente, estamos consolidados, e os critérios tornaram-se mais enfatizados. As contratações são cirúrgicas, a renovação é gradual, e os salários obedecem limites. Agora a bússola que nos guia tem o nome de necessidade. Na última janela o foco era um zagueiro, então veio Mangala. No inverno, precisávamos de um atacante, trouxeram o já adaptado a Premier Bony. Agora estamos necessitados de jogadores com característica “homegrown”, ou seja, formados no país, para assim cumprir as cotas, tanto da Premier, como da UCL, com isto, chegaram Sterling e Delph.

E não é só isto, pode-se perceber que a busca se concentram em jogadores jovens, promissores, capazes de se desenvolver dentro do clube, e atingir seu auge atuando pelo City. Neste pensamento, se fortalecem também as categorias de base, alvo diário da chegada de promessas internacionais. Os últimos exemplos foram Patrick Roberts, Enes Unal, David Faupala, etc. Qualquer semelhança com o Barça não é coincidência…

Um último argumento em defesa de Txiki é lembrar que o City esteve bastante atado nos últimos tempos por causa das restrições do Financial Fair Play da UEFA. Mas é óbvio que nem todas as críticas são injustas, a verdade é que ele não trouxe nenhum nome que fez a diferença, ou virou unanimidade no clube, mesmo os que mais se firmaram, como Fernandinho e Demichelis. Entre os fracassos, estão Jovetic e Negredo. Mangala, Bony e Fernando ainda não se firmaram. Navas é alvo de críticas gritantes. Sagna e Caballero, irrelevantes…

Outro problema são as novelas com que se transformam as negociações envolvendo o clube, e eu nem sei se é totalmente culpa dele, mas sei que é algo chato para nós que acompanhamos e ruim para o clube, pois prejudica o entrosamento e adaptação dos novos contratados, o que pode ser bem determinante no início de um campeonato. Existe a impressão que os outros clubes resolvem suas pendências de modo muito mais rápido.

Nesta semana, tivemos a primeira novela com um final feliz, com a vinda de Sterling, que não foi barato, sendo a maior contratação da história do clube. Numa reviravolta, chegou Delph, volante destaque do Aston Villa nas últimas temporadas e titular do English Team, e que também havia recusado o clube uma semana antes. Pogba era outra novela muito comentada, mas os indícios atuais é de que não terá bom desfecho, graças aos valores irreais pedidos por Juventus e o agente do jogador, o detestável Mino Raiola. O terceiro nome da dramaturgia citizen é Kevin De Bruyne, que, segundo dizem, aceitou nossa proposta e autorizou as conversas com o Wolfsburg, parecendo ser questão de tempo.

O Txiki acordou, ou assim esperamos…

Sobre João Hugo

Em 29 de dezembro de 2007, fundei o Man City Brazil com o Leonardo e o Fernando. Em 23 de fevereiro de 2017, 10 anos depois, nos tornamos a 1º torcida oficial do Manchester City na América Latina: The Citizens Brasil. O resto é estória pra boi dormir...

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