sábado , 25 novembro 2017
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Pete, the badge: a lenda viva do Manchester City

O futebol sem o torcedor não teria a menor graça. Imagine a final da FA Cup de 2011 e o chute que Yaya Toure disparou junto com todos os torcedores do City, em Wembley, sendo disputada com o estádio vazio e sem ninguém para acompanhar aquele que foi o primeiro grande troféu do clube desde 1976, obrigando a derrubada de um banner em Old Trafford que dizia “35 years” (em menção aos 35 anos de espera). Que sucesso esse jogo teria? Talvez a primeira coisa que nos venha à mente quando pensamos em futebol, além dos craques e seus lances eternizados, seja a torcida, sua festa dentro e fora dos estádios e sua paixão racionalmente inexplicável por seu clube. Tamanha paixão, muitas vezes, vai além de simplesmente acompanhar e torcer, se tornando um estilo de vida que se reflete em toda a forma de se expressar.

Quem não conhece algum torcedor de seu clube que tornou-se um personagem caricatural do futebol? Aquele torcedor que sempre marca presença nos jogos, religiosamente vestido à caráter, com seu jeito de ser carismático e excêntrico. Ele faz parte do folclore do futebol, influencia novas gerações de torcedores e ajuda a propagar a magia desse esporte apaixonante por todo o planeta. Torna-se um símbolo, personagem icônico da festa que é o futebol, e o futebol precisa dele. A própria história de vida desses torcedores pode ser contada em termos da história de seu clube. Imagine, por exemplo, um torcedor que vivencia de perto várias décadas de seu clube? Diferentes épocas: ascenção, sucesso, declínio, títulos. Sempre nos estádios, com seu time aonde for, tal torcedor contribui para criar a história do clube ao mesmo tempo em que a vive.

Em Manchester, esse torcedor é Pete, the badge! Badge, em inglês, significa distintivo ou emblema. Exatamente o que Pete carrega aos montes em seus broches pendurados em sua roupa. Todos do City, é claro! Um deles estampa a frase “Old Trafford was made for cricket”, em uma sadia provocação aos rivais locais do Manchester United. Quer deixá-lo feliz? Presenteie-o com um novo broche para sua coleção. Vestido de azul celeste da cabeça aos pés, incluindo touca, óculos, luvas, uma bolsa em torno de sua cintura e uma merendeira cheia de adesivos, Pete traz de volta um sentimento de nostalgia por tempos passados, em tempos de futebol moderno.

Nascido em Blackpool e tendo vivido em Londres por 33 anos, o pensionista de 71 anos de idade acompanha seu time do coração em seus jogos há mais de 50, sendo presença carimbada nos arredores do Etihad Stadium nos dias de jogos. Quem já visitou o estádio ou foi a algum jogo do City fora de Manchester, muito provavelmente o reconhece. Em matéria dedicada a esse emblemático torcedor dos Sky Blues, Stephen Tudor diz se recordar de diversas vezes em que câmeras de TV o mostraram entre os torcedores antes de um jogo, e até mesmo uma vez em que um apresentador mencionou Pete logo após ele ser filmado. Não importa pra que time você torça, se as câmeras filmarem Pete, você irá sorrir. Isso porque todos que falam dele dizem, sem exceção, que esse icônico torcedor é um cara inteligente, engraçado e adorável e está sempre alegre e disposto a conversar com todos, seja sobre o city ou sobre futebol como um todo. “Ele vem conversar comigo antes de cada jogo, uma vez que senta próximo de mim. Ele é um cara realmente legal”, diz cityboy95, em um fórum sobre Pete, no site oficial do Manchester City.

Pense em todas as conquistas do City que você consegue se lembrar. Muito provavelmente ele estava lá. Em 1968, já acompanhava o clube quando o time conseguiu seu segundo título inglês na história, mesmo ano em que conquistou sua segunda Supercopa da Inglaterra. Em 1969, veio o quarto título da FA Cup e, pouco depois, em 1970, acompanhou o primeiro título internacional dos Citizens, que sagrou-se campeão da UEFA Winners Cup após derrotar o Górnik Zabrze, da Polônia, por 2 a 1. Pete certamente deve se lembrar dessa época de glórias e conversar muito com torcedores sobre esse tempo. “Pete é uma lenda! Eu sentei perto dele no Colin Bell, ele trouxe fotos antigas do city e nos mostrou”, diz CITYROBBO. Collin Bell é o nome com o qual foi batizada uma das arquibancadas do Etihad Stadium, conforme tradição dos estádios ingleses. Collin atuou pelo City entre 1966 e 1979, sendo considerado por muitos como o maior jogador da história do clube. Era conhecido pelo apelido de King of the Kippax (O Rei de Kippax), em referência à arquibancada popular do antigo estádio de Maine Road, cujo setor se localizava ao longo da rua Kippax, e também por Nijinsky, nome de um famoso cavalo de corrida, devido à sua disposição em campo. O que será que Pete teria a dizer sobre Collin Bell?

Pete acompanhou vários períodos da história o clube. E se o presente inspira glórias, com participações frequentes na Liga dos Campeões e figurando constantemente no top 4 da tabela da Premier League, disputando títulos e copas do país, nem sempre foi assim. Pete acompanhou a decaída do clube, sem títulos entre 1976 e 1999, ano em que conquistou a terceira divisão do campeonato inglês, tendo sido rebaixado para a segunda divisão em 1996, e para a terceira, duas temporadas após, em 1998. Pete não abandonou sua paixão pelo clube e acompanhou sua nova ascensão, tendo retornado em definitivo à Premier League em 2002, de onde não saiu desde então.

Eu me pergunto o que o City causou a Pete, emocionalmente falando, durante todo esse tempo de altos e baixos. Aliás, quem nunca assistiu ao vídeo chamado Look what it’s done to me (Veja o vídeo legendado no fim da matéria), assista imediatamente. Mesmo que você não seja torcedor do City, você irá se arrepiar. Imagine toda a emoção do desejo por um novo título inglês, guardado por 44 anos, sendo posta para fora em um jogo que estava praticamente perdido, numa virada conseguida após os 45 minutos do segundo tempo, diante de sua torcida, desbancando seu maior rival. Um título que estava praticamente jogado fora. Histórico. Tantos fatores combinados parecem fazer da conquista do terceiro título inglês do City um roteiro de filme. E foi! Aliás, não foi. Foi algo diferente. Nenhum roteiro de filme traria a exata emoção do que aconteceu naquele dia 13 de maio de 2012, em Manchester. Era dia das mães, no Brasil, e eu já vi torcedores do City dizerem que esse dia foi o único dia das mães que não passaram com suas mãe. Compreensível. Pete provavelmente estava lá. Acompanhou tudo e, em 2014, repetiu a dose, vendo os Citizens se sagrarem tetracampeões ingleses em sua história.

Imagine por quantas experiências ele passou. Quantas histórias ele tem pra contar. Mesmo em períodos em que o hooliganismo atingiu seu auge na Inglaterra, ele já usava suas roupas azuis e carregava suas parafernálias por lá, enquanto poucos ousavam sequer usar o cachecol de seu clube do coração. Dos oitenta anos em que o City mandou seus jogos no Maine Road, Pete acompanhou pelo menos metade. Desde aquela época até a construção e abertura do City of Manchester Stadium, posteriormente chamado de Etihad Stadium por motivos de naming rights, ele provavelmente assistiu mais jogos dos Citizens do que você jamais assistirá, e provavelmente gastou mais dinheiro nisso do que você jamais gastará. Ultimamente, porém, Pete tem se mostrado preocupado com relação às enormes quantias em dinheiro envolvidas com o futebol e seus efeitos perniciosos. Esperamos que isso não afaste Pete dos estádios, pois o futebol precisa de torcedores como ele. O futebol precisa de Pete, the badge.

 

#TudoPeloCity #SempreJuntos

Texto: Jonatan dos Santos
Revisão e diagramação: João Hugo

Sobre Jonatan dos Santos

Redator do The Citizens Brasil. Carioca. Vinte e poucos anos de paixão pelo futebol.

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